Quinta, 25 Março 2021 15:28

Enfermeira Mônica Calazans, 1ª vacinada contra Covid no país, relata caos em hospitais de SP após au

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Por Kleber Tomaz, G1 SP — São Paulo.

enfermeira Mônica Calazans, primeira pessoa vacinada no Brasil contra a Covid-19, relata caos em hospitais de São Paulo por causa do aumento no número de pacientes internados com a doença. Segundo o Conselho Regional de Enfermagem (Coren), o sistema hospitalar no estado está comprometido em razão da "capacidade dos leitos já esgotada ou próxima do esgotamento em vários municípios".

“Eu acho que o caos está por conta das internações [nos hospitais]. O número de internações está muito grande. O número de casos está aumentando. Essa é a grande questão”, falou Mônica na última sexta-feira (19) ao G1.

Até quarta-feira (22), São Paulo tinha mais de 30 mil internados com coronavírus em hospitais. Desse total, aproximadamente 12 mil eram pacientes infectados pelo vírus que estavam em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Com os dados incluídos nesta quarta, o estado chegou ao total de 68.904 óbitos por Covid-19 desde o início da pandemia e 2.352.438 casos confirmados.

“Apesar de todo esse caos que a gente está passando, eu peço muito a Deus proteção para mim quando saio para cuidar das pessoas”, disse Mônica, que continua atuando como enfermeira na linha de frente de combate à Covid.

Em 17 de janeiro, ela ficou conhecida ao tomar a primeira vacina Coronavac no país. Depois, em 12 de fevereiro recebeu a segunda dose.

 
Número de internações por Covid em SP mais do que dobra em março em relação a fevereiro
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Mas, aos 55 anos de idade, ela quer ser reconhecida mesmo por trabalhar em dois hospitais da capital: o Pronto Atendimento (PA) de São Mateus, na Zona Leste, e o Emílio Ribas, no centro.

Segundo Mônica, essas unidades estão lotadas de pacientes com suspeita de Covid e casos confirmados da doença.

“Tudo lotado”, falou na sexta-feira (19) ao G1 a enfermeira sobre a situação do PA São Mateus, antes de sair de férias de lá, no início de março. “Muita gente procurando, muito paciente grave, e esse problema, que a gente está enfrentando, que é a questão das vagas nos hospitais”.

No Pronto Atendimento, Mônica, outros enfermeiros e a equipe médica atendem casos suspeitos de coronavírus. Como lá não é uma unidade de internação, os pacientes que precisam ser internados aguardam em quatro macas a abertura de vagas nos hospitais para tratamento em leitos ou em UTIs.

Em março, começou a aumentar o número de pacientes nessa situação de aguardar vagas. Como outros hospitais que estão recebendo pacientes também estão lotados, acabam impactando”, falou Mônica.

Segundo ela, a lotação nos grandes hospitais impede a transferência de pacientes que precisem de internação para esses locais. “Isso não acontece somente com o PA São Mateus. Isso acontece com todos os outros hospitais, com todas as outras unidades que não têm estrutura para o paciente ficar internado.”

Um dos hospitais que podem receber os pacientes é o Emílio Ribas, onde, desde maio do ano passado, Mônica trabalha em UTIs com contrato emergencial por conta da pandemia.

Lotado, lotado, lotado. Você não tem noção. Você não tem noção. Está lotado”, disse Mônica sobre os dez leitos de UTI exclusivos para Covid no Emílio Ribas. “Eu nunca vi o que a gente está passando hoje, nunca. Trabalhei 23 anos dentro de uma UTI, eu nunca peguei uma situação dessa”.

Segundo a enfermeira, nesse mais de um ano em que trabalha na linha de frente no combate à Covid, o que mudou foi o perfil dos internados com a doença.

“Ano passado, o idoso era o foco. Você recebia muito idoso, de 72, 74, 80, 81 [anos], nessa faixa etária. E hoje já não, você pega 45, 36, 26”, disse Mônica. “Pacientes com idade de 26 anos sem comorbidade. Até hoje ninguém conseguiu explicar isso. Ela é cruel, ela é cruel. É uma doença que não escolhe quem ataca.”

Mônica falou da tristeza no que chamou de “distanciamento familiar” em razão da doença. “O que mais me marcou nesse um ano foi o ‘distanciamento familiar’. É muito triste quando você põe o paciente na ambulância e fala para um familiar: você não vai junto”, disse a enfermeira.

Emoções diversas já foram sentidas por Mônica durante a pandemia. Seja a de felicidade por descobrir que um paciente se recuperou. Seja a de tristeza ao saber que um deles morreu. Ela já perdeu a conta do número de pacientes que viu morrer em razão do coronavírus.

“Um número grande, eu não consigo te falar em número”, disse ela, que conta o número de pessoas conhecidas que perdeu para a doença. “De amigos, 11. Sete eram da área da enfermagem, auxiliar, técnico... nesta semana, eu perdi três vizinhos próximos. E um da igreja.”

Mônica conta que sai de casa para trabalhar e ir ao mercado. Mas sempre protegida com máscara, e usando álcool em gel. Além de evitar aglomerações. De acordo com as autoridades sanitárias, essas medidas reduzem o risco de contrair o vírus.

“As pessoas precisam ter é consciência. Sair de casa se houver necessidade mesmo”, falou a enfermeira, que lamenta a realização de festas com aglomerações de pessoas. “Essas festas clandestinas que acontecem... Fica também difícil controlar tudo isso. Acho que depois dessa pandemia muita gente vai rever os seus valores.

Enquanto isso, Mônica só tem uma certeza. “O meu papel agora é esse: conscientização das pessoas. A gente precisa dar um breque enquanto todas as pessoas não forem vacinadas. Mas até você colocar isso na cabeça das pessoas é muito difícil. Mas a gente não pode desistir. ”