Aulas têm duração de cerca de 50 minutos, ingressos na casa dos R$ 200 e até fogos de artifício.
É uma aula de spinning típica: pedala-se de pé, sentado, simulando flexões ou no ritmo do funk, samba e rock dos anos 1980. A excentricidade fica por conta do local e do visual: do alto de helipontos e de terraços de prédios da capital paulista, fileiras simétricas de bicicletas por vezes bloqueiam temporariamente os pousos e decolagens de helicópteros. Com duração de cerca de 50 minutos, ingressos na casa dos R$ 200 e até fogos de artifício, as aulas de “spinning nas alturas” ganharam o topo de São Paulo.
A nova fronteira foi aberta por empreendedores e treinadores que já tinham experiência em aulas especiais em outros ambientes fora das academias. Os exercícios incluem atividades patrocinadas por empresas de vestuário esportivo, suplementos alimentares, barrinhas de cereal, massagem e sorvetes. A diversão tem atraído principalmente o público feminino.
A advogada Camila Valiente, de 42 anos, se tornou adepta das aulas com as colegas de trabalho, que a incumbiram de comprar os ingressos para as experiências.
— São as músicas, a energia de como tudo acontece — diz a advogada Camila Valente, de 42 anos, sobre a experiência que vive com as amigas (que a encarregaram de comprar os ingressos). — É um escape mesmo da realidade. Seja você um ciclista ou alguém que só quer curtir e aproveitar. É procurado mais pelo bem estar da saúde mental do que para queimar caloria em si. Na última edição participei de uma aula às 20h e teve uma finalização com fogos de artifício.
Personal trainer e empreendedor que mora em Anália Franco, na Zona Leste, Rodrigo Gusman, de 45 anos, chegou ao terraço dos prédios depois de dar aulas de spinning à distância, pelo Zoom, durante a pandemia, até a flexibilização do distanciamento social.
— Lembro que fiz um spinning em um buffet infantil que tinha somente dez pessoas presenciais e o resto participando por um telão. E aí comecei a fazer aulas de spinning em lugares diferentes — lembra o personal trainer, que já passou pelo terraço de sete prédios diferentes e também levou as bicicletas para quadras de areia, pistas de patinação e até para um circo.
O primeiro evento nas alturas de Gusman foi em menor proporção, no terraço de um pet shop na Mooca, na Zona Leste, no fim de 2020. Na sequência, veio a primeira edição em um heliponto desativado, em 2021, no alto do Hotel Pestana, perto da Avenida Paulista. O empreendedor lembra que a tarefa mais difícil foi encontrar um local que aceitasse a empreitada.
— Comecei a procurar pelo Google todos os helipontos de São Paulo, fiz uma lista e comecei a entrar em contato. Mandei mensagens para uns vinte. Ninguém me respondia, até que o pessoal do Pestana topou abrir uma negociação — conta Gusman.
As aulas com vista panorâmica para a cidade são adotadas em eventos corporativos. Uma empresa de telefonia com sede na região da Berrini paralisou as atividades do heliponto do edifício para o spinning com o sklyline paulistano.
Gusman calcula que gasta até R$ 50 mil para montar um dia de evento. No Pestana, onde tem promovido as aulas mais recentes, é preciso subir de elevador com três bicicletas por vez até completar as quarenta vagas para cada sessão. A dificuldade torna a periodicidade complicada: Gusman faz até quatro eventos por ano, entre atividades abertas e corporativas. O ingresso custa R$ 220.
— No último evento, em fevereiro, foram 180 participantes. Para o próximo, em maio, vamos dobrar para 360 dias. Estamos com um pré-cadastro que já tem 2,1 mil interessados. Sempre esgota rápido, e nessa virada de ano, aumentou a procura — detalha o treinador.
Ajuda do influencer
O influenciador Murillo Oliveira deu um empurrãozinho para a popularização da modalidade, com um vídeo mostrando o último evento de Gusman que já acumulou mais de 600 mil visualizações.
— Peguei a aula das 17h. A música, o pôr do sol, a vista para a cidade, deixa tudo muito legal. É algo parecido com uma aula de spinning normal, mas tem DJ, as pessoas entram na vibe e fica uma energia bem alto astral — elogia Oliveira.
Outra empresa que oferece o modelo é a rede de estúdios Spin’n Soul, de Daniel Nasser, de 42 anos. Nasser afirma que a empresa foi precursora dos eventos de spinning ao ar livre em São Paulo, ainda em 2016.
— O nicho que trabalhamos é o de wellness, mas ele segue uma forma de entretenimento. O público que é ativo na cidade faz de tudo: sai para jantar, para socializar, para malhar. Existe uma intersecção que é muito clara nos que consomem o entretenimento do bem-estar — diz o empresário.
A empresa faz até três edições de spinning do último andar dos edifícios por ano. A próxima será na Avenida Paulista, nos dias 22 e 23 de março. Os ingressos custam R$ 229.
— Contamos com cerca de 500 participantes por edição. É um tipo de evento custoso e que não é fácil achar um lugar que atenda aos parâmetros de segurança, então muitas vezes fazemos nos mesmos lugares. O ingresso inclui também os presentes dos parceiros que estarão no dia. Nas últimas tivemos bebidas pré e pós treino, suplementos — lembra.